| O caranavalesco Jaques Wagner e seu afilhado Wellington César, agora Ministro da Justiça: indefectível sensação de fim de feira... |
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| O caranavalesco Jaques Wagner e seu afilhado Wellington César, agora Ministro da Justiça: indefectível sensação de fim de feira... |
Na madrugada desta terça-feira, a estrada que dá acesso ao sítio Santa Bárbara, em Atibaia — aquele que Lula diz ter ganhado “de presente” de Jacó Bittar —, amanheceu pichada. Com se vê na foto acima, de Avener Prado (Folhapress), os manifestantes escreveram “SÍTIO DO LULA LADRÃO” e, segundo informa reportagem da Folha, também “LULA NA CADEIA”. Tempos difíceis para o companheiro.
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está por aí, a derrubar ministros, pintando e bordando, mas deveria, por enquanto ao menos, ser grato à Força Tarefa e a Rodrigo Janot em particular. No que lhe diz respeito, a coisa está saindo é muito barata, não é mesmo?
Lula é, por enquanto, um quase-investigado. E, para ficar nos termos de sua turma, há uma apuração, chamemos a coisa assim, envolvendo seu nome em razão de um apartamento “fubango” — que foi como Marco Aurélio Garcia classificou o tríplex — e um sítio até modesto, quando a gente leva em consideração o tamanho do gigante.
Em manifestação ao STF, afirmaram os procuradores da Lava Jato:
“No que tange ao PIC [Procedimento Investigatório Criminal] conduzido pelo MPF, as provas em cognição sumária são no sentido de que os fatos sob apuração, além de reproduzirem tipologia criminosa de lavagem de capitais já denunciada no âmbito da Operação Lava Jato, envolvem José Carlos Bumlai, executivos da construtora Odebrecht e executivos da construtora OAS, todos investigados e muitos dos quais já denunciados no esquema de corrupção que assolou a Petrobras”.
E se informa, então, que se apura se parte de vantagens indevidas foi recebida por Lula no exercício do mandato.
Lula nega que o apartamento seja seu. Para o sítio, ele arranjou a mais exótica de todas as justificativas: teria sido um “presente” de seu amigo e ex-sindicalista Jacó Bittar, embora a propriedade esteja no nome de Fernando Bittar (filho de Jacó) e Jonas Suassuna, ambos sócios de Fábio Luís da Silva, o Lulinha. Os demais presentes, das empreiteiras, vieram depois. Até uma antena 3G foi posta no local pela Oi. Presentes.
O ex-presidente deveria é dar graças a Deus. Eu até hoje não entendi por que não existe um inquérito para investigar a sua atuação no empréstimo de dinheiro que o grupo Schahin fez ao PT, que teve José Carlos Bumlai como laranja. Quando a dívida estava em R$ 60 milhões, o grupo assinou um contrato de US$ 1,6 bilhão para a operação do navio-sonda “Vitória 10.000”, da Petrobras. E o passivo com o partido foi perdoado. Duas delações premiadas — a de Nestor Cerveró e a de Fernando Baiano — asseguram que Lula sabia de tudo. Salim Shahin, um dos diretores do grupo, admite a relação de troca. Bumlai assume que foi laranja — o mesmo Bumlai que, segundo Lula, resolveu por conta própria reformar o tal sítio que pertenceria aos amigos de Lulinha… Tenham a santa paciência.
Lula sabe que a história não cola. A pesquisa Datafolha deixou isso muito claro. Mas ele também não tem alternativa. Mais uma vez, ele já avisou que não vai depor ao Ministério Público Estadual. Quando se chegou a pensar que poderia haver condução coercitiva, seus advogados decidiram até entrar com pedido de habeas corpus preventivo.
Ora, ele tem consciência de que se negar a depor prejudica um pouco mais a sua reputação. Mas, nesse caso, meus caros, trata-se de escolher, do seu ponto de vista, o mal menor.
A cabeça de Lula deve estar presa a uma espécie de nó. Depois de tudo, como é que ele se tornou referem de um apartamento “fubango” e de um sítio que, se fosse seu também não papel, não geraria estranhamento nenhum — desde, é claro, que não houvesse os favores de duas empreiteiras e de uma empresa de telefonia?
Lula deve supor que o homem mais honesto do mundo, que é o que diz de si mesmo, não precisaria ter receio de falar aos promotores de São Paulo. E por que ele não fala, então?
É evidente que José Eduardo Cardozo foi um péssimo ministro da Justiça. Basta ver as questões que estavam afeitas à sua área. Só pioraram ao longo do tempo — ok, reconheço que esse não é um privilégio só dele. Mais de uma vez , teve um comportamento detestável com o governo de São Paulo, por exemplo, que pertence a um partido adversário. Então não me peçam lágrimas por ele. Mas não é menos evidente, também, que foi derrubado por Luiz Inácio Lula da Silva.
Se essa é a última concessão de Dilma para tentar impedir que o cerco se feche em torno de Lula ou se é apenas a primeira, isso é o que vamos ver. Uma coisa é certa: desde que teve início a Operação Lava Jato e, depois, a Zelotes, que investiga Luís Cláudio, o filho mais novo do chefão petista, a carga do ex-presidente sobre a sua sucessora se tornou quase insuportável.
Lula nunca gostou de Cardozo. Durante o mensalão, achou que o então deputado se empenhou pouco na defesa dos companheiros. Mais: à época, o ministro defenestrado alinhou-se com aqueles que pregavam a renovação do partido. O Apedeuta é homem de ódios eternos quando a sua cidadela está em disputa. Ele pode fechar acordo com José Sarney, Fernando Collor e com o capeta, caso estes se dignem a fazer a genuflexão. Adversários convertidos viram amigos eternos. Já os amigos que ousam contestá-lo vão para o inferno.
O Poderoso Chefão já derrubou três ministros de Dilma. Não entro no mérito da competência de cada um, mas é fato que Aloizio Mercadante (ex-Casa Civil, hoje Educação); Joaquim Levy (Fazenda) e agora Cardozo caíram pelas mãos de Lula. Se vocês olharem bem, nos três casos, eram o seu interesse pessoal e as necessidades do partido que estavam em pauta. A esta altura, o homem quer que o Brasil se dane.
Mas o tal Wellington César tem como interferir na Polícia Federal? Em tese, não. Na prática, vamos ver. Desde logo, ele pode substituir, se quiser, Leandro Daiello, diretor-geral da PF. O cargo é de confiança do ministro. Ainda assim, a autonomia fica tecnicamente preservada. Nem o Número 1 da instituição tem poder para mandar um policial parar de fazer uma investigação.
Ocorre que isso que se escreve aqui não ilumina os corredores, não é? Aliás, sabemos, as coisas são diferentes. Até porque a gente se obriga a ser lógico: se nada houvesse a fazer, então substituir o ministro para quê? A demissão de Cardozo da Justiça só foi exigida por Lula porque ele acredita que a PF pode voltar a funcionar mais ou menos nos moldes de quando ele foi presidente.
E a gente sabe que raramente se viu tamanha politização do órgão. Lula tem claro que, na sua gestão, os alvos preferenciais da Polícia Federal eram adversários do governo e do petismo. E aí eles batiam no peito e se orgulhavam de uma Polícia Federal que não poupava ninguém. A eficiência do órgão chegou a fazer parte de horário político e de campanha eleitoral.
Lula tem saudade daqueles tempos em que sua Polícia colaborou para quebrar as pernas do DEM, por exemplo. Bom era prender Daniel Dantas, José Roberto Arruda, Carlinhos Cachoeira, destruindo, de quebra, Demostenes Torres. Aí era o caso até de cantar o Hino Nacional. Mas eis que essa Polícia Federal decide atuar com isenção partidária, não perguntando qual é a filiação do investigado. Aí Lula passou a ver uma ameaça ao Estado de Direito.
O corolário é o seguinte: quando a PF algemava os inimigos de Lula, estávamos diante da evidência de que, “nestepaiz”, os ricos também choram. Agora que a PF prende petistas, mesmo sem algemas, então é porque existe no país um Estado policial. Segundo o preclaro Rui Falcão, setores da PF e do MPF foram “capturados” pela direita…
É evidente que a troca de guarda no Ministério da Justiça obedece aos piores propósitos. Ou, então, fazê-la pra quê? Dilma não queria que Cardozo saísse; Cardozo não queria sair. E, no entanto, isso aconteceu.
Tenho fé que o tiro acabe saindo pela culatra. Afinal, a PF tem todo o direito, dadas as circunstâncias, de se sentir sob ameaça.