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terça-feira, 2 de agosto de 2016

Juízes, inclusive Moro, erram ao fazer carga contra projeto que pune abuso de autoridade

Algo está fora da ordem quando os Poderes da República não respeitam suas devidas competências. Vamos lá: uma das razões de ser deste blog é dizer o que pensa sem entrar no clima de “abafa”. A página existe para ponderar, modular, detalhar… Não sou líder de torcida. Acho lamentável quando pessoas que prestam serviços relevantes, cumprindo o seu dever funcional, resolvem ir além da seara que a democracia lhes reserva para fazer proselitismo indevido. Vamos ver.

Nesta segunda, magistrados liderados pela Ajufe (Associação dos Juízes Federais), procuradores e delegados da Polícia Federal promoveram uma manifestação de protesto contra a lei que pune abuso de autoridade — QUE EXISTE EM TODAS AS DEMOCRACIAS DIGNAS DESSE NOME. Aliás, o Brasil também tem a sua, a 4.898, de 9 de dezembro de 1965, uma herança da ditadura, quando abuso de autoridade não chegava a ser um problema. O ato aconteceu em frente ao Fórum Pedro Lessa, na Avenida Paulista.

O texto que pune o abuso de autoridade voltou a tramitar, desta vez no Senado, por iniciativa de Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente da Casa. Como ele é investigado em pelo menos 11 inquéritos, então se convencionou que tudo o que propõe é ruim e visa à impunidade.

Na quinta-feira passada, Sérgio Moro, que não agrediu os “direitos humanos de Lula”, também protestou em Curitiba contra a proposta. Estão todos, a meu ver, errados e atuando fora de sua competência. Explico.

Vamos lá. Em 2009, o ministro do STF Gilmar Mendes, então, presidente do tribunal, formou uma comissão para elaborar uma proposta para atualizar a lei que pune abuso de autoridade. Integraram o grupo, vejam vocês!, o à época ministro do STJ Teori Zavascki (hoje relator do mensalão), o então desembargador Rui Stocco, o ex-secretário da Receita Everardo Maciel e Luciano Felício Fuck, antes e ainda hoje um dos principais assessores de Mendes.

O trabalho dessa comissão virou um projeto de lei, assinado pelo então deputado Raul Jungmann (PPS-PE), hoje ministro da Defesa. Não custa lembrar que ele compôs a linha de frente na Câmara em favor do impeachment. Ocorre que o texto ficou dormitando na Casa. Nunca se deu consequência a ele. Renan apenas o recuperou. EU ACHO QUE VOCÊS NÃO DEVEM SE LIMITAR À MINHA OPINIÃO, À DE MORO OU À DA AJUFE: LEIAM O PROJETO. A íntegra está aqui.

O presidente da Ajufe, Roberto Carvalho Veloso, disse o seguinte à Folha: “Segundo o projeto, se o juiz entender que há requisitos para decretação de uma prisão preventiva, mas o tribunal entender que não é caso de prisão, e conceder habeas corpus, pela leitura do tipo penal contido no projeto, o juiz teria cometido um crime”.

Bem, li e reli a proposta e não encontrei a passagem que permite tal interpretação. É uma pena que a imprensa reproduza essas opiniões sem pedir ao interlocutor que indique que dispositivo permitiria a punição de um juiz cuja decisão tivesse sido tornada sem efeito pelo colegiado.

Moro também mandou mal. Segundo ele, “ninguém é contra que o abuso de autoridade seja penalizado. Mas a redação atual do projeto, pela vagueza e abrangência, criminaliza o juiz pela interpretação da lei”.

Farei a Moro a mesma cobrança: que indique onde isso está escrito.

Procedimentos
Há certos procedimentos que começam a ser irritantes, em especial na imprensa. Em casos assim, não basta reproduzir opiniões e fazer uma biografia desairosa — ou airosa — dos litigantes para dar o trabalho por concluído.

Eu certamente me oporia a um projeto que punisse um juiz que teve uma decisão reformada por um colegiado. Eu certamente me oporia a um projeto que impedisse o juiz de interpretar a lei — até porque isso o tornaria dispensável. Interpretação, no caso, bem entendido, com base na letra legal: a Maior e as menores.

O que me preocupa é que o debate perde completamente qualquer veleidade técnica para se transformar numa suposta disputa entre os que defendem a impunidade e os que são contra ela. E ESSE, INFELIZMENTE, É UM DEBATE FALSO.

Seria prudente que os jornalistas fossem cumprir uma pauta como essa com o texto em mãos. Quando um juiz ou qualquer outro fizesse acusação tão séria contra uma proposta, dever-se-ia cobrar que ele apontasse que trecho do projeto justifica aquela avaliação.

Ou começamos a nos voltar um pouco para as coisas que estão escritas, conferindo alguma objetividade à análise, ou todos tentaremos ganhar o debate no berro, como se o mundo se resumisse a uma luta entre bonzinhos e mauzinhos.

Ora, todos nós torcemos pelos bonzinhos, certo? Infelizmente, ou felizmente, a realidade não é assim.



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